A máquina de fabricar água, os príncipes e as princesas – por Andréa Lie Iwamizu Cepollina

Em pleno domingo de primavera com o verão já gritando com uns 35 graus em São Paulo, nossa família estava dentro de casa por conta da nossa bebê Mila, que com menos de um mês de vida, ainda não está passeadora.
Como distrair seu filho mais velho, com a energia típica dos três anos de idade, quando você não pode sair de casa e a eletricidade acabou por horas seguidas em todo o bairro, a água está escassa há meses e a sua operadora de telefonia deu pane nacional?
De repente, a disponibilidade e a abundância dizem não para seu filho: não, não dá para ver televisão, não dá para ouvir música, não pode brincar na banheira ou fazer uma pintura bem lambuzada, e até o iPad, de uso normalmente restrito, morreu temporariamente. Sem falar da preguiça de descer muitos andares de escada para ir até o parquinho, a quadra ou a piscina do prédio, e subir tudo de novo. E se a luz não voltar, nem com os livros vamos conseguir nos distrair e nem com os jogos e brinquedos vamos conseguir brincar.
Felizmente, nossos filhos e famílias têm condições de acesso à educação de qualidade, aos bens culturais, ao lazer, à saúde, a um carro novo e cheiroso que nos leva confortavelmente para onde quisermos na hora que desejarmos. Infelizmente, todos não estamos preparados para lidar com a falta ou com mesmo com a redução dos recursos básicos, como a água, a eletricidade, a internet, ou nem tão básicos assim, como um dinheiro extra para um passeio, uma refeição especial fora de casa, uma roupa ou um presente fora de uma data comemorativa.
Coincidentemente, neste mesmo domingo, em meio ao perrengue, leio uma notícia no jornal que me fez achar graça da situação. Um engenheiro brasileiro inventou uma máquina de fazer água! Que, em que pese o alto custo e a capacidade limitada de produção, além do tempo e da complexidade para fabricar o equipamento, já está sendo comercializada.
Pronto!!!! Não precisamos mais ter discussões políticas sobre se a responsabilidade da falta desse recurso tão precioso é do governo ou de São Pedro, e não vamos mais ter que reclamar que nossos filhos não podem mais tomar banho na escola e ver a água jorrando à vontade na pracinha.
Com todas as dificuldades possíveis, até porque também me acostumei a não acumular roupa suja para lavar, tomar banhos longos, ter direito a dois ou três banhos no verão e ter os banheiros e a cozinha lavados pelo menos duas vezes por semana, há alguns meses comecei a ensinar meu filho sobre a falta da água.
Assim que a água começou a faltar em algumas ocasiões no prédio e no bairro, além do problema que antes parecia distante, em outras áreas da cidade e de todo o Estado de São Paulo, começamos a racionar mais o uso. É claro que Pedro reclamou vários dias seguidos quando começamos a poupar água no banho, afinal, é muito melhor banheira cheia para brincar de cachoeira e chuveiro jorrando água à vontade do que ter que molhar o corpo e se ensaboar sem água, para depois se enxaguar, assim como é muito chato escovar os dentes sem poder brincar com água na pia. Também estou mostrando a ele que dá para aproveitar a água da banheira para regar as plantas ou passar pano para limpar o chão, e que podemos não dar descarga toda vez que faz xixi se estiver faltando água, e que a camiseta predileta dele vai demorar mais tempo para voltar para a gaveta, porque só vamos ligar a máquina de lavar roupas quando ela estiver cheia.
Aproveitei o domingo caótico e a notícia da maravilhosa máquina de fabricar água para explicar também para meu filho que, sem eletricidade, não tem televisão, não tem música e nem internet. E fomos nos distrair enfeitando um bolo batido e assado na noite anterior, mas que poderia ser uma receita de bolo batido na mão, com o forno aceso com um palito de fósforo se a luz não voltasse. E brincamos de cuidar da nenê, e o pai foi corajoso e brincou de expedição, descendo os sete andares de escada para ir com ele visitar os patos no parque aqui perto. E o tempo passou até que as coisas voltassem a funcionar.
Não é o jogo do contente daquele livro que muitas das que têm pelo menos 35 ou 40 anos leram na adolescência, mas eu acredito que é importante que até as crianças pequenas entendam que fabricar água não é possível, do ponto de vista de ser economicamente viável. E que somos felizes em ter acesso a tantas coisas e tantos recursos, mas que mesmo os muito básicos podem faltar, e ainda assim vamos continuar fazendo as coisas, levar a vida normalmente e até nos divertir de um jeito diferente.
Também acredito que mesmo crianças muito pequenas, como nossos filhos, podem ser convidadas a interagir com essas situações novas, da falta de algo que sempre existe à vontade, mesmo que frequentem escolas caras e maravilhosas que são oásis frente à realidade da maioria.
Quem sabe, em vez de exigirmos que a escola contrate uma fila de caminhões pipa para que nossos filhos não percebam que a água está faltando, possamos sugerir que ela monte uma pecinha sobre a falta de água, de onde vem a água, da ideia de uma máquina maluca que fabrica água. Talvez seja uma proposta à alternativa de realimentarmos continuamente a síndrome de filhos príncipes e filhas princesas, pessoinhas para as quais nada pode faltar nunca, independentemente da realidade que nos cerca.

Andrea é jornalista e mãe de Pedro que frequenta o período integral, e mãe de Mila de apenas um mês. Colaborou, gentilmente, para nosso blog, com reflexões importantes neste período que todos nós, paulistanos, estamos atravessando.

Colocar Casaco

Nestes dias em que a meteorologia informa que a temperatura irá oscilar entre 10 e 28 graus (e acerta!), precisamos por e tirar os casacos  das crianças algumas vezes durante o dia.

Muitas pessoas que estão lendo este post devem pensar que isto é uma tarefa muito prática e simples de ser feita: basta chamar a criança e colocar o casaco!

Então, isto é simples na maioria das vezes, entretanto não é incomum, pais chegarem  de manhã, com um casaco na mão, enquanto o filho está vestindo apenas uma camiseta. Muitas vezes, com certa tristeza e constrangimento, relatam que fizeram de tudo para vestir o filho, mas não conseguiram. Então, entregam-nos o casaco e antes de irem embora nos veem colocando-o na criança, sem que ela apresente qualquer resistência.

Por que isso acontece?

Podem ser muitos os motivos, entre eles certamente pode estar o interesse das crianças em testarem (no melhor sentido desta palavra) seus pais. Como  uma tentativa de entender e controlá-los!

Quando as crianças chegam ao berçário e nós conseguimos  vesti-las, num certo sentido elas mostram para todos (si mesmas, pais e educadores) que entendeu que aquilo que ela queria (a atenção dos pais) não será mais possível naquele momento de despedida, então, é melhor ficar quentinha, sentindo o calor que seus pais tanto quiseram proporcionar-lhe.

Mas, muito se engana quem acha que para os educadores esta tarefa ocorra sempre deste jeito.

Há vezes em que colocar um casaco se transforma numa missão impossível!

Foi o que aconteceu comigo na semana passada. Fui informada de que uma criança estava se recusando a colocar o casaco e como começava a ficar frio fui tentar ajudar.

Afinal de contas, sou educadora há bastante tempo, tenho muita experiência, já li e estudei muito sobre educação, psicologia e crianças, então em pouco tempo conseguiria convencê-la a vestir o casaco.

Uma hora depois… eu ainda não tinha conseguido! Conversei, ajudei-a a escolher outro casaco em sua mochila, falei do frio que fazia, expliquei que estava querendo cuidar dela. Dei um tempo, tentei de novo com outros argumentos e… Não consegui!

Foi uma outra educadora que conseguiu!

Que bom! Pelo menos alguém conseguiu!

No dia seguinte, fez muito calor e sabem o que esta criança fez? Pegou uma blusa em sua mochila e passou o dia agasalhada!

Por que será que ela fez isso?

Algumas pessoas podem achar que foi por pirraça, mas eu prefiro achar que foi um pedido de desculpas!

Pode não ser nenhuma das duas coisas, nunca saberemos. E isto que é, ao mesmo tempo encantador e exaustivo na tarefa de educar: não há uma única resposta para as coisas. E nem todo conhecimento ou experiência dão conta de resolver as situações com uma criança real.

Às vezes ela precisa recusar um ato de cuidado, para aceita-lo depois…

E nós, adultos, pais e educadores o que devemos fazer? Continuar cuidando sempre! Pois cuidar significa:
1. Ação de tratar de algo ou alguém; zelar ou tomar conta de algo ou alguém;
2. Preocupar-se com ou assumir a responsabilidade de;
3. Dar atenção a; reparar ou notar;
4. Cogitar ou discorrer; deduzir ou refletir; pensar ou imaginar;
5. Manifestar interesse ou atração por;

E quem não gosta de ter registrado na memória a ação de uma pessoa que tenha importado-se por nós?

É isso! Mesmo que a gente não consiga vestir o casaco, fica o registro de nosso cuidado! E para mim, isto já está de bom tamanho!

Ana Paula Yazbek

Mãe

Faz tempo que sinto vontade de escrever um post sobre ser mãe. Afinal, em meu cotidiano, estou em contato direto com questionamentos sobre os desafios de ser mãe, seja por conta de relatos de como as crianças se comportam em casa, ou por conversas com colegas da área da educação, ou mesmo pelos desafios que enfrento na relação e educação de meus filhos.

A vontade ficou mais forte agora, creio que em função da proximidade do Dia das Mães e toda a veiculação de campanhas publicitárias que ocupam lugar de destaque nas mídias, mas o que mais me influenciou no momento, foi um video que está circulando pelas Redes Sociais, sobre uma falsa entrevista de emprego (conforme o link abaixo), em que o entrevistador apresenta as mil exigências do cargo (disponibilidade incondicional, privação de sono e outras necessidades básicas…) e todas as especializações necessárias, sem recebimento de salário. Como todos os entrevistados recusam a proposta, ao final descobrem que a oferta era falsa, pois estavam oferecendo uma  vaga ao posto de mãe. Como frequente neste tipo de campanha, muitos se surpreendem e se emocionam.

Quando o assisti pela primeira vez fiquei bastante tocada, mas ao mesmo tempo disparou uma reflexão sobre ser mãe, porque ser mãe não é um emprego. Ser mãe é uma opção, ou mesmo um acaso quando o filho não é planejado. Também não é uma especialização em que algumas mulheres são experts. A gente tem que saber que ser mãe pode ser algo que a gente nunca aprenda. Nós vamos sabendo ser mãe de cada um dos filhos que temos, no dia a dia com eles. É um aprendizado contínuo e que se modifica conforme os filhos crescem, porque ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança, de um um adolescente ou de um adulto.

Tem dias que a gente tem certeza absoluta de que tudo que a gente faz está bom, que tem paciência, que o filho está educado, comportado e todas as coisas caminham bem. Quando eles são pequenos, o dia em que o bebê mamou bem, dormiu bem, comeu bem, fez cocô, arrotou, começou a sorrir, é um dia que a gente tem a sensação de plenitude materna. Mas ai, no dia seguinte em que você já está dando palestra para todas as outras mães, olhando para elas com certa superioridade e pensando “puxa, não entendo porque minhas amigas falavam que era tão difícil ser mãe!”, seu bebê começa a chorar, gritar, apresentar cólica, não dorme, fica irritado. Então você se angustia, se lembra de tudo que já foi feito, falado, de todas as implicâncias que teve com as outras pessoas em função de coisas que elas disseram, de repente você pensa “hum, acho que eu não sei mais nada!”. Ai o bebê vai crescendo, vai começando a falar, interagir e essa sensação de saber de tudo num momento e em outro de nada, é muito forte e frequente. Então a gente busca informações sobre educação de filhos, lê uma matéria sobre crianças hiperativas, outra sobre a necessidade de se ter tempo para o seu filho… e todas estas coisas vão trazendo certezas e MUITAS dúvidas sobre o que fazer, como fazer, quando fazer, o que é mais adequado fazer com o filho. E isso não é uma coisa fácil e tranquila de lidar.

Por isso que ser mãe não pode ser visto como um emprego, porque é possível desistirmos de um emprego, e de ser mãe não dá para desistir. Mesmo quando se desiste, ou se mãe morre ou o filho morre, a pessoa continua sendo mãe daquele filho. Esta é uma diferença enorme. Num emprego seu envolvimento emocional  é de outra natureza, em alguns momentos pode até te exaurir, te desgastar, mas um filho te dá um retorno que não tem tamanho. É algo que é muito intenso! Tem horas que muitas de nós deseja proibir a palavra MÃE, tem horas que temos vontade de fundar a Sociedade das Mães Anônimas – “só por hoje eu não vou gritar com meu filho!”, “só por hoje eu não vou ligar para o que ela fez!”. Mas tem outras, MUITAS, horas que sentimos muito prazer em desfrutar das conquistas e graças dos filhos. É muito bom!

Nem todas as mulheres devem se tornar mães, mas todas que por escolha ou por acaso se tornaram mães, devem mergulhar na plenitude deste desafio. Porque a gente aprende muito, aprende sobre um outro e também sobre nós mesmas. Aprende um pouco mais sobre quem somos nós!

Porque a mãe que a gente gostaria de ser, antes de ter filho, é uma mãe muito diferente da mãe que a gente é. Nem tanto pelos princípios, que provavelmente são os mesmos. Mas quando somos de fato mães, nós erramos, acertamos, nos divertimos, nos impacientamos… a gente se envolve! E isso é muito forte.

Tem também uma outra questão, que é a ligação que temos com o filho. Isto é, um bebê pode dormir em seu próprio quarto, mas a mãe escuta o barulho que ele faz. O filho adolescente pode ir para balada, ficar um tempo sem dar notícias e a mãe fica preocupada, mas basta uma mensagem (um whatsapp) do filho para apaziguar a angústia. Essa ligação é fundamental para a segurança emocional do filho. No livro “Fadas no Divã” de Diana e Mario Corso, quando eles analisam a história do Peter Pan, falam que a Sra. Darling (mãe da Wendy, João e Miguel) fica sempre com a janela aberta para recebê-los de volta. Isto me faz pensar que é importante que nós, como mães, consigamos dar espaço para nossos filhos experimentarem as coisas, viverem a vida deles e ao mesmo tempo sentirem que têm uma retaguarda, que têm algo que organiza, que têm uma presença de verdade, com todas as qualidades e defeitos.

Além disso tudo, ao nos tornamos mãe, descobrimos que o filho que a gente tem é bem diferente do filho que imaginávamos ter. Isto é, a gente dá luz a um filho, mas quem nasce é uma outra pessoa, com desejos e vontades próprias, diferentes das nossas.

Apesar disso tudo, se fosse entrevistada para o cargo de mãe, não teria nenhuma dúvida de aceitá-lo!

Ana Paula Yazbek

 

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Link para o filme http://www.youtube.com/watch?v=TTm8KHqhnys

Outro tempo

 

Trabalhar com criança é um privilégio. Se a gente se detém ao que elas estão fazendo, a gente tem a oportunidade de ver as coisas de uma outra maneira, de entrar em contato com os espaços, o tempo, as relações de uma maneira muito diferente da nossa e isso é algo que tem sido muito importante para mim, tenho me detido bastante sobre isso. No dia a dia com as crianças, seja na relação de pais e filhos ou na relação de educadores a gente muitas vezes tem que interrompê-las, pois temos o nosso tempo regido pelo cumprimento de tarefas: hora para comer, hora para dormir, hora para acordar… se isto é ruim ou bom a gente pode discutir num outro momento, o que quero dizer é que nossa vida é regrada por tempos, mas estes tempos são diferentes dos tempos das crianças. As crianças não têm esta conexão com as obrigações , elas têm conexão com o que a estão motivando naquele momento, mas por conta destes tempos, muitas vezes nós temos que interrompê-las, pegá-las, leva-las e isso é uma coisa que é necessária, não é possível que elas decidam fazer cada coisa na hora que querem, agora, se a gente se detém um pouco ao que elas estão fazendo, a gente vivencia cenas maravilhosas e entra em contato com uma dimensão que é muito diferente da nossa.

Nesta sexta-feira no final da tarde eu vivenciei uma situação que foi um presente para o final da minha semana. Já com minha bolsa no ombro, indo embora e me despedindo das pessoas, uma educadora falou que tinham duas crianças escondidas atrás de uma folhagem do parque. Eu as vi e percebi que a turma delas já tinha subido para jantar e elas não tinham ido, então eu me aproximei para ver o que elas estavam fazendo. E por trás das folhas eu perguntei:

- Ei, o que vocês estão fazendo ai?

Uma delas, um menino de dois anos e meio respondeu:

- A gente tá cozinhando!

A outra criança, não tinha idade nem para falar, era uma menina de um anos e três meses, mas ela estava ali, determinada a fazer o mesmo que seu colega.

Então, eu me aproximei um pouco mais e vi que eles estavam brincando com gravetos no pedaço oco do tronco da árvore que temos atrás das folhagens. Eles estavam espetando os gravetos no fundo deste tronco.

A educadora destas crianças saiu da cozinha para chama-las, mas eu falei que as levaria em breve, disse-lhe que eles estavam ocupados, cozinhando.

Eu fiquei mais um pouco ali, o menino mexia a panela, a menina o imitava. Então eu perguntei:

-       Já tá ficando pronta esta comida?

Ele disse:

-       Ainda não! Tá faltando o chocolate!

Eu falei:

-       Então pega o chocolate!

Ele se abaixou, pegou um pouco de folha seca, umas sementinhas, jogou no fundo do tronco, mexeu, e ai eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Ainda não! – ele respondeu.

- Ih! Então vamos ter que desligar este fogo para você cozinhar depois! Porque sua turma está comendo e você precisa comer com seus amigos.

Ele fez um barulhinho com a boca, “tic”, deixou o graveto e saiu em direção à cozinha.

A menina continuou cozinhando. Se ela estava cozinhando como o colega eu não vou saber dizer, nem ela! Mas ela estava muito ocupada, fazendo as mesmas coisas que o amigo.

Ela então, se agachou, pegou mais folha, jogou dentro do tronco, e eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

Ela mexeu de novo, pegou o graveto do amigo, deu na minha mão fez um gesto como se me pedisse para cozinhar também. Eu cozinhei e perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

Ela pegou mais um pouco de folhas, jogou e pela terceira vez eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

-       Puxa! E agora? Você precisa comer! Vamos lá comer?

Ela então, deixou o graveto, saiu de trás das folhagens, pediu meu colo e eu a levei para a cozinha. Chegando lá eu lavei suas mãos e ela foi comer.

Se eu não tivesse visto esta cena ou se fosse num outro momento, eu interromperia a brincadeira destas duas crianças de outra maneira. Simplesmente eu falaria:

-       Fulano, Siclana, tá na hora de comer! Vamos lá! Vocês vão sozinhos ou querem que eu os ajude?

E eu não teria a oportunidade desta pausa, de agachar, tocar num tronco de madeira, ficar escondida, mexer num graveto, cozinhar… de ter ficado neste outro tempo. E estas crianças teriam entrado em contato com uma voz autoritária, não teriam tido a oportunidade de me mostrar o que estavam fazendo e principalmente me mostrar o valor que tinha o que estavam fazendo.

Esta sensação de ter podido estar com estas crianças deste jeito, finalizar meu dia, uma sexta-feira, depois de uma semana inteira de trabalho, foi um presente. É com este presente que convido a todos iniciarem esta nova semana, tentando fazer este exercício que é tão difícil para nós adultos: de ter uma relação mais plácida com o tempo, menos pragmática, pois é possível sim fazer as coisas no tempo certo, mas de outro jeito que não seja no automático

Boa semana!!!foto 2

Ana Paula Yazbek

 

O momento da chegada – Por que muitas crianças choram?

Esta é uma pergunta frequente nesta época do ano e merece muita atenção de todas as pessoas que partilham dos cuidados das crianças: pais, mães, educadoras e funcionários do Espaço da Vila.

Há algumas cenas que ocorrem com frequência. Uma delas é quando a criança apresenta grande animação ao perceber que chegou ao Espaço, mas quando entra e dá-se conta de que terá que se despedir dos pais, começa a chorar. Outra, é quando a criança começa a chorar ao notar que chegou ao berçário. E há aquelas que choram ao perceber a movimentação em casa que indica que virão para o Espaço da Vila.

Na maior parte das vezes, o choro dura poucos minutos. Tão logo os pais saem do campo de visão, as crianças param de chorar e começam a brincar com os objetos que estão à sua disposição.

Por que isto acontece?

Por muitos motivos, mas vamos tentar esmiuçar alguns deles.

Na fase da adaptação, o choro é comum pois as crianças ainda não estão plenamente familiarizadas com o Espaço, as educadoras e colegas e ainda não se reconhecessem como parte integrante deste grupo. Por isso, ao notar que os pais irão embora, demonstram o estranhamento por meio do choro.

Após o período de adaptação, algumas crianças continuam a chorar na despedida, mas notamos uma diferença na maneira delas se expressarem. Para algumas, o choro ocorre em função do momento da chegada caracterizar-se como o momento da separação com seus pais e, assim, sinalizam que sentirão saudade.

Quando o choro permanece por muito tempo, torna-se quase que um ritual de despedida, uma vez que a criança não ainda não tem um repertório que a ajude a lidar com a emoção da despedida e já reconhece que ao chorar terá uma resposta previsível tanto dos pais como dos educadores, no modo como será acolhida.

Às vezes o choro pode ser sinal de um desconforto físico no momento da chegada, sono, fome, calor, sede, roupa incomodando…

Tanto os pais como as educadoras sentem-se desafiados diante destas situações, buscando reconhecer a razão do choro e a partir daí oferecer o melhor apoio para que a criança consiga se restabelecer e envolver-se com a rotina que planejamos para elas.

Por vezes, a maior presença dos pais no momento da chegada auxilia a criança a se conectar com seus educadores e colegas. Em outros momentos, é preferível que a despedida seja mais breve, principalmente quando a criança demonstra grande ansiedade diante de qualquer movimentação de seus pais.

Este momento costuma ser delicado e cabe a todos os adultos envolvidos, a sensibilidade sobre qual a melhor maneira da despedida ocorrer.

Por mais que a criança sinalize seu desconforto, é preferível que os pais mantenham-se calmos e transmitam segurança a seus filhos por meio de ações zelosas, dando-lhes um forte abraço, por exemplo e encaminhando-os para o colo da educadora que estiver fazendo a recepção.

Neste momento, a educadora oferece o colo e procura por meio de brincadeiras, objetos (chupetas, paninhos) e conversas, ajudar a criança a se acalmar e se vincular a sua nova rotina. 

Por mais desconfortável que nós adultos fiquemos diante do choro das crianças, devemos reconhecê-lo como legítimo, como uma forma de expressão e um pedido de acolhimento por parte delas.

A medida que o tempo passa, o choro deste momento, pode ser substituído por outras formas de despedida, algumas mais tranquilas, outras mais animadas, quando a criança nem sequer olha para trás para despedir-se dos pais… Mas isto fica para outro momento.

 

Mexendo num vespeiro – por Ana Paula Yazbek

Estou fazendo um curso de pós-graduação e neste sábado assisti a  uma aula com o produtor cultural Gustavo Kurlat e por isso peço licença a ele e às minhas colegas de curso para partilhar com vocês algumas reflexões sobre a produção cultural destinada a crianças pequenas.

Já faz um tempo que me incomodo com a “febre” de consumo provocada pela Galinha Pintadinha , por isso vinha criando coragem para mexer neste vespeiro e, após a aula, tomei coragem de cutucá-lo. Afinal, é certo que ela é um fenômeno atual, muitas crianças acordam, andam de carro, tomam posse dos Smartphones dos pais, almoçam e jantam embaladas por seus clipes. Então, se a Galinha Pintadinha é tão presente na vida das crianças, as diverte e garante tanto tempo de concentração, por quê questionar sua qualidade?

Por vários motivos! O primeiro deles se refere à escolha do repertório, pois muitas, senão todas as canções, são de domínio público, muitas delas são cantigas escolares cantadas há muito tempo. Não considero que isto seja um grande problema, mas no mínimo deveriam fazer alguma referência à apropriação deste repertório.  Outro se refere à qualidade musical: as canções possuem pouca riqueza harmônica ou melódica e parece que seu objetivo é só provocarem excitação e serem “músicas chicletes”, que mesmo a gente não querendo, ao ouvir uma única vez já começa a cantarolar o refrão.  . Além disso, tem o fato (que pessoalmente considero mais sério) dos clipes apresentarem os enredos das cantigas de modo extremamente literal, dando pouca ou nenhuma margem para as metáforas e para a imaginação; aspectos que tornam o produto artístico mais bonito, rico e interessante.

Não pretendo que a partir de agora as famílias deixem de ouvir e consumir a enormidade de produtos, shows e clipes da Galinha Pintadinha. Só proponho uma parada para discutir se este repertório deve se sobrepor a tantos outros destinados a esta faixa etária. Muitos deles, infelizmente são menos divulgados, o que é uma pena.

Então, aproveito este espaço para partilhar com vocês, uma animação inglesa destinada ao público infantil que conheci neste sábado. Chama-se “Small Potaoes” ou  “Batatinhas”, foi veiculada pela TV Brasil, mas pode ser vista no YouTube  http://www.youtube.com/watch?v=HOezI3J-YMI&list=PL5Mkg4GZaGDzanHHwQs88WPBaT2aLw0Gq. São quatro personagens que cantam em diferentes estilos e abordam diversos temas em episódios que duram em média três minutos. Vale a pena assistir com as crianças!

Muito do que escrevi foi baseado na fala de Gustavo Kurlat, mas assumo aqui toda a responsabilidade pela interpretação que fiz de sua aula.

Peço a todos que tenham outras sugestões culturais a fazer que contribuam com comentários. Do mesmo modo, quero que todos que discordem do que escrevi que sintam-se à vontade para criticar.

Por enquanto é só,

small potatoesgalinha pintadinha

Obrigada,

Ana Paula Yazbek



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