Mãe

Faz tempo que sinto vontade de escrever um post sobre ser mãe. Afinal, em meu cotidiano, estou em contato direto com questionamentos sobre os desafios de ser mãe, seja por conta de relatos de como as crianças se comportam em casa, ou por conversas com colegas da área da educação, ou mesmo pelos desafios que enfrento na relação e educação de meus filhos.

A vontade ficou mais forte agora, creio que em função da proximidade do Dia das Mães e toda a veiculação de campanhas publicitárias que ocupam lugar de destaque nas mídias, mas o que mais me influenciou no momento, foi um video que está circulando pelas Redes Sociais, sobre uma falsa entrevista de emprego (conforme o link abaixo), em que o entrevistador apresenta as mil exigências do cargo (disponibilidade incondicional, privação de sono e outras necessidades básicas…) e todas as especializações necessárias, sem recebimento de salário. Como todos os entrevistados recusam a proposta, ao final descobrem que a oferta era falsa, pois estavam oferecendo uma  vaga ao posto de mãe. Como frequente neste tipo de campanha, muitos se surpreendem e se emocionam.

Quando o assisti pela primeira vez fiquei bastante tocada, mas ao mesmo tempo disparou uma reflexão sobre ser mãe, porque ser mãe não é um emprego. Ser mãe é uma opção, ou mesmo um acaso quando o filho não é planejado. Também não é uma especialização em que algumas mulheres são experts. A gente tem que saber que ser mãe pode ser algo que a gente nunca aprenda. Nós vamos sabendo ser mãe de cada um dos filhos que temos, no dia a dia com eles. É um aprendizado contínuo e que se modifica conforme os filhos crescem, porque ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança, de um um adolescente ou de um adulto.

Tem dias que a gente tem certeza absoluta de que tudo que a gente faz está bom, que tem paciência, que o filho está educado, comportado e todas as coisas caminham bem. Quando eles são pequenos, o dia em que o bebê mamou bem, dormiu bem, comeu bem, fez cocô, arrotou, começou a sorrir, é um dia que a gente tem a sensação de plenitude materna. Mas ai, no dia seguinte em que você já está dando palestra para todas as outras mães, olhando para elas com certa superioridade e pensando “puxa, não entendo porque minhas amigas falavam que era tão difícil ser mãe!”, seu bebê começa a chorar, gritar, apresentar cólica, não dorme, fica irritado. Então você se angustia, se lembra de tudo que já foi feito, falado, de todas as implicâncias que teve com as outras pessoas em função de coisas que elas disseram, de repente você pensa “hum, acho que eu não sei mais nada!”. Ai o bebê vai crescendo, vai começando a falar, interagir e essa sensação de saber de tudo num momento e em outro de nada, é muito forte e frequente. Então a gente busca informações sobre educação de filhos, lê uma matéria sobre crianças hiperativas, outra sobre a necessidade de se ter tempo para o seu filho… e todas estas coisas vão trazendo certezas e MUITAS dúvidas sobre o que fazer, como fazer, quando fazer, o que é mais adequado fazer com o filho. E isso não é uma coisa fácil e tranquila de lidar.

Por isso que ser mãe não pode ser visto como um emprego, porque é possível desistirmos de um emprego, e de ser mãe não dá para desistir. Mesmo quando se desiste, ou se mãe morre ou o filho morre, a pessoa continua sendo mãe daquele filho. Esta é uma diferença enorme. Num emprego seu envolvimento emocional  é de outra natureza, em alguns momentos pode até te exaurir, te desgastar, mas um filho te dá um retorno que não tem tamanho. É algo que é muito intenso! Tem horas que muitas de nós deseja proibir a palavra MÃE, tem horas que temos vontade de fundar a Sociedade das Mães Anônimas – “só por hoje eu não vou gritar com meu filho!”, “só por hoje eu não vou ligar para o que ela fez!”. Mas tem outras, MUITAS, horas que sentimos muito prazer em desfrutar das conquistas e graças dos filhos. É muito bom!

Nem todas as mulheres devem se tornar mães, mas todas que por escolha ou por acaso se tornaram mães, devem mergulhar na plenitude deste desafio. Porque a gente aprende muito, aprende sobre um outro e também sobre nós mesmas. Aprende um pouco mais sobre quem somos nós!

Porque a mãe que a gente gostaria de ser, antes de ter filho, é uma mãe muito diferente da mãe que a gente é. Nem tanto pelos princípios, que provavelmente são os mesmos. Mas quando somos de fato mães, nós erramos, acertamos, nos divertimos, nos impacientamos… a gente se envolve! E isso é muito forte.

Tem também uma outra questão, que é a ligação que temos com o filho. Isto é, um bebê pode dormir em seu próprio quarto, mas a mãe escuta o barulho que ele faz. O filho adolescente pode ir para balada, ficar um tempo sem dar notícias e a mãe fica preocupada, mas basta uma mensagem (um whatsapp) do filho para apaziguar a angústia. Essa ligação é fundamental para a segurança emocional do filho. No livro “Fadas no Divã” de Diana e Mario Corso, quando eles analisam a história do Peter Pan, falam que a Sra. Darling (mãe da Wendy, João e Miguel) fica sempre com a janela aberta para recebê-los de volta. Isto me faz pensar que é importante que nós, como mães, consigamos dar espaço para nossos filhos experimentarem as coisas, viverem a vida deles e ao mesmo tempo sentirem que têm uma retaguarda, que têm algo que organiza, que têm uma presença de verdade, com todas as qualidades e defeitos.

Além disso tudo, ao nos tornamos mãe, descobrimos que o filho que a gente tem é bem diferente do filho que imaginávamos ter. Isto é, a gente dá luz a um filho, mas quem nasce é uma outra pessoa, com desejos e vontades próprias, diferentes das nossas.

Apesar disso tudo, se fosse entrevistada para o cargo de mãe, não teria nenhuma dúvida de aceitá-lo!

Ana Paula Yazbek

 

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Link para o filme http://www.youtube.com/watch?v=TTm8KHqhnys

Outro tempo

 

Trabalhar com criança é um privilégio. Se a gente se detém ao que elas estão fazendo, a gente tem a oportunidade de ver as coisas de uma outra maneira, de entrar em contato com os espaços, o tempo, as relações de uma maneira muito diferente da nossa e isso é algo que tem sido muito importante para mim, tenho me detido bastante sobre isso. No dia a dia com as crianças, seja na relação de pais e filhos ou na relação de educadores a gente muitas vezes tem que interrompê-las, pois temos o nosso tempo regido pelo cumprimento de tarefas: hora para comer, hora para dormir, hora para acordar… se isto é ruim ou bom a gente pode discutir num outro momento, o que quero dizer é que nossa vida é regrada por tempos, mas estes tempos são diferentes dos tempos das crianças. As crianças não têm esta conexão com as obrigações , elas têm conexão com o que a estão motivando naquele momento, mas por conta destes tempos, muitas vezes nós temos que interrompê-las, pegá-las, leva-las e isso é uma coisa que é necessária, não é possível que elas decidam fazer cada coisa na hora que querem, agora, se a gente se detém um pouco ao que elas estão fazendo, a gente vivencia cenas maravilhosas e entra em contato com uma dimensão que é muito diferente da nossa.

Nesta sexta-feira no final da tarde eu vivenciei uma situação que foi um presente para o final da minha semana. Já com minha bolsa no ombro, indo embora e me despedindo das pessoas, uma educadora falou que tinham duas crianças escondidas atrás de uma folhagem do parque. Eu as vi e percebi que a turma delas já tinha subido para jantar e elas não tinham ido, então eu me aproximei para ver o que elas estavam fazendo. E por trás das folhas eu perguntei:

- Ei, o que vocês estão fazendo ai?

Uma delas, um menino de dois anos e meio respondeu:

- A gente tá cozinhando!

A outra criança, não tinha idade nem para falar, era uma menina de um anos e três meses, mas ela estava ali, determinada a fazer o mesmo que seu colega.

Então, eu me aproximei um pouco mais e vi que eles estavam brincando com gravetos no pedaço oco do tronco da árvore que temos atrás das folhagens. Eles estavam espetando os gravetos no fundo deste tronco.

A educadora destas crianças saiu da cozinha para chama-las, mas eu falei que as levaria em breve, disse-lhe que eles estavam ocupados, cozinhando.

Eu fiquei mais um pouco ali, o menino mexia a panela, a menina o imitava. Então eu perguntei:

-       Já tá ficando pronta esta comida?

Ele disse:

-       Ainda não! Tá faltando o chocolate!

Eu falei:

-       Então pega o chocolate!

Ele se abaixou, pegou um pouco de folha seca, umas sementinhas, jogou no fundo do tronco, mexeu, e ai eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Ainda não! – ele respondeu.

- Ih! Então vamos ter que desligar este fogo para você cozinhar depois! Porque sua turma está comendo e você precisa comer com seus amigos.

Ele fez um barulhinho com a boca, “tic”, deixou o graveto e saiu em direção à cozinha.

A menina continuou cozinhando. Se ela estava cozinhando como o colega eu não vou saber dizer, nem ela! Mas ela estava muito ocupada, fazendo as mesmas coisas que o amigo.

Ela então, se agachou, pegou mais folha, jogou dentro do tronco, e eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

Ela mexeu de novo, pegou o graveto do amigo, deu na minha mão fez um gesto como se me pedisse para cozinhar também. Eu cozinhei e perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

Ela pegou mais um pouco de folhas, jogou e pela terceira vez eu perguntei:

-       Já tá pronto?

-       Não!

-       Puxa! E agora? Você precisa comer! Vamos lá comer?

Ela então, deixou o graveto, saiu de trás das folhagens, pediu meu colo e eu a levei para a cozinha. Chegando lá eu lavei suas mãos e ela foi comer.

Se eu não tivesse visto esta cena ou se fosse num outro momento, eu interromperia a brincadeira destas duas crianças de outra maneira. Simplesmente eu falaria:

-       Fulano, Siclana, tá na hora de comer! Vamos lá! Vocês vão sozinhos ou querem que eu os ajude?

E eu não teria a oportunidade desta pausa, de agachar, tocar num tronco de madeira, ficar escondida, mexer num graveto, cozinhar… de ter ficado neste outro tempo. E estas crianças teriam entrado em contato com uma voz autoritária, não teriam tido a oportunidade de me mostrar o que estavam fazendo e principalmente me mostrar o valor que tinha o que estavam fazendo.

Esta sensação de ter podido estar com estas crianças deste jeito, finalizar meu dia, uma sexta-feira, depois de uma semana inteira de trabalho, foi um presente. É com este presente que convido a todos iniciarem esta nova semana, tentando fazer este exercício que é tão difícil para nós adultos: de ter uma relação mais plácida com o tempo, menos pragmática, pois é possível sim fazer as coisas no tempo certo, mas de outro jeito que não seja no automático

Boa semana!!!foto 2

Ana Paula Yazbek

 

O momento da chegada – Por que muitas crianças choram?

Esta é uma pergunta frequente nesta época do ano e merece muita atenção de todas as pessoas que partilham dos cuidados das crianças: pais, mães, educadoras e funcionários do Espaço da Vila.

Há algumas cenas que ocorrem com frequência. Uma delas é quando a criança apresenta grande animação ao perceber que chegou ao Espaço, mas quando entra e dá-se conta de que terá que se despedir dos pais, começa a chorar. Outra, é quando a criança começa a chorar ao notar que chegou ao berçário. E há aquelas que choram ao perceber a movimentação em casa que indica que virão para o Espaço da Vila.

Na maior parte das vezes, o choro dura poucos minutos. Tão logo os pais saem do campo de visão, as crianças param de chorar e começam a brincar com os objetos que estão à sua disposição.

Por que isto acontece?

Por muitos motivos, mas vamos tentar esmiuçar alguns deles.

Na fase da adaptação, o choro é comum pois as crianças ainda não estão plenamente familiarizadas com o Espaço, as educadoras e colegas e ainda não se reconhecessem como parte integrante deste grupo. Por isso, ao notar que os pais irão embora, demonstram o estranhamento por meio do choro.

Após o período de adaptação, algumas crianças continuam a chorar na despedida, mas notamos uma diferença na maneira delas se expressarem. Para algumas, o choro ocorre em função do momento da chegada caracterizar-se como o momento da separação com seus pais e, assim, sinalizam que sentirão saudade.

Quando o choro permanece por muito tempo, torna-se quase que um ritual de despedida, uma vez que a criança não ainda não tem um repertório que a ajude a lidar com a emoção da despedida e já reconhece que ao chorar terá uma resposta previsível tanto dos pais como dos educadores, no modo como será acolhida.

Às vezes o choro pode ser sinal de um desconforto físico no momento da chegada, sono, fome, calor, sede, roupa incomodando…

Tanto os pais como as educadoras sentem-se desafiados diante destas situações, buscando reconhecer a razão do choro e a partir daí oferecer o melhor apoio para que a criança consiga se restabelecer e envolver-se com a rotina que planejamos para elas.

Por vezes, a maior presença dos pais no momento da chegada auxilia a criança a se conectar com seus educadores e colegas. Em outros momentos, é preferível que a despedida seja mais breve, principalmente quando a criança demonstra grande ansiedade diante de qualquer movimentação de seus pais.

Este momento costuma ser delicado e cabe a todos os adultos envolvidos, a sensibilidade sobre qual a melhor maneira da despedida ocorrer.

Por mais que a criança sinalize seu desconforto, é preferível que os pais mantenham-se calmos e transmitam segurança a seus filhos por meio de ações zelosas, dando-lhes um forte abraço, por exemplo e encaminhando-os para o colo da educadora que estiver fazendo a recepção.

Neste momento, a educadora oferece o colo e procura por meio de brincadeiras, objetos (chupetas, paninhos) e conversas, ajudar a criança a se acalmar e se vincular a sua nova rotina. 

Por mais desconfortável que nós adultos fiquemos diante do choro das crianças, devemos reconhecê-lo como legítimo, como uma forma de expressão e um pedido de acolhimento por parte delas.

A medida que o tempo passa, o choro deste momento, pode ser substituído por outras formas de despedida, algumas mais tranquilas, outras mais animadas, quando a criança nem sequer olha para trás para despedir-se dos pais… Mas isto fica para outro momento.

 

Mexendo num vespeiro – por Ana Paula Yazbek

Estou fazendo um curso de pós-graduação e neste sábado assisti a  uma aula com o produtor cultural Gustavo Kurlat e por isso peço licença a ele e às minhas colegas de curso para partilhar com vocês algumas reflexões sobre a produção cultural destinada a crianças pequenas.

Já faz um tempo que me incomodo com a “febre” de consumo provocada pela Galinha Pintadinha , por isso vinha criando coragem para mexer neste vespeiro e, após a aula, tomei coragem de cutucá-lo. Afinal, é certo que ela é um fenômeno atual, muitas crianças acordam, andam de carro, tomam posse dos Smartphones dos pais, almoçam e jantam embaladas por seus clipes. Então, se a Galinha Pintadinha é tão presente na vida das crianças, as diverte e garante tanto tempo de concentração, por quê questionar sua qualidade?

Por vários motivos! O primeiro deles se refere à escolha do repertório, pois muitas, senão todas as canções, são de domínio público, muitas delas são cantigas escolares cantadas há muito tempo. Não considero que isto seja um grande problema, mas no mínimo deveriam fazer alguma referência à apropriação deste repertório.  Outro se refere à qualidade musical: as canções possuem pouca riqueza harmônica ou melódica e parece que seu objetivo é só provocarem excitação e serem “músicas chicletes”, que mesmo a gente não querendo, ao ouvir uma única vez já começa a cantarolar o refrão.  . Além disso, tem o fato (que pessoalmente considero mais sério) dos clipes apresentarem os enredos das cantigas de modo extremamente literal, dando pouca ou nenhuma margem para as metáforas e para a imaginação; aspectos que tornam o produto artístico mais bonito, rico e interessante.

Não pretendo que a partir de agora as famílias deixem de ouvir e consumir a enormidade de produtos, shows e clipes da Galinha Pintadinha. Só proponho uma parada para discutir se este repertório deve se sobrepor a tantos outros destinados a esta faixa etária. Muitos deles, infelizmente são menos divulgados, o que é uma pena.

Então, aproveito este espaço para partilhar com vocês, uma animação inglesa destinada ao público infantil que conheci neste sábado. Chama-se “Small Potaoes” ou  “Batatinhas”, foi veiculada pela TV Brasil, mas pode ser vista no YouTube  http://www.youtube.com/watch?v=HOezI3J-YMI&list=PL5Mkg4GZaGDzanHHwQs88WPBaT2aLw0Gq. São quatro personagens que cantam em diferentes estilos e abordam diversos temas em episódios que duram em média três minutos. Vale a pena assistir com as crianças!

Muito do que escrevi foi baseado na fala de Gustavo Kurlat, mas assumo aqui toda a responsabilidade pela interpretação que fiz de sua aula.

Peço a todos que tenham outras sugestões culturais a fazer que contribuam com comentários. Do mesmo modo, quero que todos que discordem do que escrevi que sintam-se à vontade para criticar.

Por enquanto é só,

small potatoesgalinha pintadinha

Obrigada,

Ana Paula Yazbek

Oficina das cores – de onde veio esta ideia?

Desde 2002, ano de início do Espaço da Vila, realizamos Oficinas de Artes com as crianças. Esta prática ocorre com certa regularidade na rotina de cada turma, pelo menos uma vez por mês. As propostas variam, assim como os espaços usados e os materiais disponibilizados. As oficinas são configuradas de modo a garantir a autonomia das crianças em relação à escolha dos materiais, em sua movimentação e nos modos de utilizar os instrumentos e suportes (pincéis, tintas, colas, papéis, canetas, caixas…) oferecidos.

Além destas oficinas, desde 2008, realizamos pelo menos uma vez por semestre UMA GRANDE OFICINA DE ARTE, que envolve todas as turmas. Neste dia, preparamos os espaços, selecionamos materiais e solicitamos às famílias que mandem as crianças com roupas que poderão manchar/sujar sem problema.

Neste dia, a rotina das turmas se modifica por completo, após o lanche, as crianças vão para a pracinha e de lá transitam livremente pelos espaços configurados. No dia 02 de outubro, quarta-feira, realizamos mais uma destas oficinas. Ela estava programada para acontecer no dia 17/09, mas por conta do tempo frio e chuvoso ela foi transferida para o dia 25/09 e por fim para o dia 02/010, fizesse chuva ou sol! No fundo, torcíamos para uma mudança no tempo, mas não foi o que aconteceu. Chegamos a pensar em transferi-la novamente, mas como gostamos de desafios, resolvemos pensar em alternativas para viabilizar sua realização.

Em geral, preparamos tintas e melecas a base de farinha e água, e por serem materiais molhados/úmidos, não seriam adequados para um dia frio e chuvoso. Começamos  a pensar em materiais secos que poderíamos utilizar, além de canetas, giz de cera e giz de lousa… Então, entre o desejo de postergar novamente a oficina ou fazer uma cobertura em todo o Espaço da Vila, nos lembramos do evento ocorrido no dia 28/09 no Parque Villa-Lobos, o Holi Festival, criado na Índia para comemorar a chegada da primavera, no qual foram utilizados pós coloridos.

Pronto! A solução foi dada, fomos pesquisar como preparar o pó colorido. Vimos receitas a base de água, corante tipo anilina comestível misturados em farinha,  amido de milho ou polvilho. Testamos todas elas, tivemos ajuda de algumas crianças e na terça-feira a noite finalizamos o preparo das misturas e também dos espaços. Nos lembramos, de um desenho produzido com linhas e lãs que vimos num curso, e também disponibilizamos este material em alguns espaços, para que as crianças pudessem brincar e compor linhas no chão. Cobrimos paredes com fita crepe e cortamos imagens de revista para serem fixadas. Fizemos massinhas e as distribuímos sobre mesas e suportes de madeiras, disponibilizamos ferramentas para facilitar seu manuseio e também a modelagem.

Assim, com as ideias inspiradas em eventos culturais e em nossas vivências como educadoras, lançamos os desafios às crianças, deixando-as livres para brincar, correr, subir, descer, imprimir marcas e colorir todo nosso Espaço, como é possível ver nas cenas abaixo.

http://youtu.be/GfPY3-t5xqs

http://youtu.be/sJ1jOe1WfPg

 

Sobre atrasos – Heloísa Trigo

liniersmacanudo

Há tempos quero escrever sobre atrasos, mais especificamente, sobre o efeito de um atraso para as crianças, quando seus pais chegam tarde para buscá-las no berçário.

No entanto, não quero tratar deste tema o colocando no âmbito do certo ou do errado, também vivo o conflituoso trânsito de São Paulo, sei que todos nós somos passíveis de atrasos e para mim, todos os motivos que são relatados pelas famílias são legítimos.

Então, para que este texto?

Para direcionar o nosso olhar para o conteúdo do atraso: o que ele pode significar para as crianças?

Por serem muito pequenas, na maioria das vezes, as crianças do berçário comunicam-nos seus sentimentos de forma sensorial e, diante de um atraso  já vi crianças reagirem de muitas maneiras. Algumas recusam-se a ir para o colo dos pais, outras enrijecem o corpinho para  dificultar serem pegas; outras lançam-se para os braços de seus familiares como se fossem ser “salvas” naquele instante. Também, vi crianças continuarem a brincadeira, recusando-se a voltar para casa, outras chorarem, enquanto algumas aceitam o atraso com parcimônia.

Todas elas, independentemente da faixa etária (bebês ou crianças um pouco maiores), demonstram saber que algo não está no devido lugar  e, ao reencontrar  seus pais sinalizam o desconforto sentido.

Existe um algo a mais que fica desta experiência, que nós adultos precisamos ter consciência do que é. Como educadora, confesso que só tomei consciência, depois de muitas vezes, esperar com elas por seus familiares.

A depender do tempo da espera, “esse algo a mais”  não é substituído com pedidos de desculpas, presentes ou passeios à padaria. Para uma criança pequena, minutos são toleráveis, mais do que isso, não será um imprevisto e, sim ter a sensação de ser esquecida, de abandono.

Quando a criança tem interiorizada a rotina do berçário, noto que ela  também se organiza, como sabedora do que vai acontecer, quando chega próximo ao horário da saída, algumas delas esperam o momento para mostrar aos pais um pouco do que fez, do que gostou de brincar e ficam felizes em mostrar aos amigos que seus pais chegaram.

Quando as saídas acontecem no tempo previsto, elas demonstram maior organização interior, optam por brincadeiras e situações de integração com seus pais, mas quando não, escolhem brincadeiras mais desorganizadas, como, andar no jardim escuro, tirar do lugar os objetos do hall da entrada, buscam uma atenção as avessas.

Para mim, não querer por alguns minutos o contato com seus familiares é um recurso que a criança utiliza para direcionar o olhar  do pai, da mãe, da avó, do avô, da babá para algo que ainda não  lhe é possível verbalizar: “Vem me buscar mais cedo!”.

Heloisa Trigo

* Charge de Macanudo

Falando um pouco sobre as recusas das crianças

Resolvi escrever sobre as contrariedades e negativas das crianças, pois tenho visto muitas famílias preocupadas com algumas atitudes de seus filhos e filhas. Para início da nossa reflexão vou tentar olhar para nossas exigências sob o ponto de vista das crianças.

Imagine as seguintes cenas -

Cena 1 – Você está brincando e de repente começa a perceber uma movimentação diferente, sua mãe entra no banho e ao sair coloca uma roupa que você sabe que não é de ficar em casa. Neste momento, você é retirado de sua brincadeira e sua mãe começa a trocar sua roupa, diz que irá te levar para brincar com seus amigos e que ela irá trabalhar. Percebendo que a atmosfera é de pressa e ansiedade, você começa a se irritar, mostra incômodo em deixar os brinquedos, lembra-se de uma camiseta que gosta de usar, então começa a fazer corpo duro para não ser trocado.

Cena 2 – Já é de noite, você está com sono, está sendo colocada no berço para dormir, quando ouve o barulhinho da chave abrindo a porta de casa. Você desperta e fica animada, pois sabe que seu pai acaba de chegar. Então, começa a brincar, correr, pular, mostrar seus brinquedos e a euforia só aumenta. Seu pai também fica animado em te ver e se interessa por tudo o que você está mostrando. O tempo, porém, vai passando e seus pais começam a mudar a sintonia, seu pai precisa ir ao banheiro, jantar, tomar banho, relaxar um pouco, sua mãe também. Você percebe que algo está diferente, mas mesmo com sono, prefere ficar acordada, pois quer ficar junto deles. Neste momento, um dos dois te leva para o quarto e a coloca para dormir, mas você se recusa, chora e demora pelo menos 40 minutos para adormecer.

Cena 3 – Você está jantando na casa da sua avó e a cada colherada oferecida, abre um bocão enorme. De repente, sua mãe chega para te buscar e você para de comer, começa a chorar, mexe o corpo para sair do cadeirão, mas sua avó e sua mãe insistem em mantê-lo sentado e em dar-lhe comida. Você não está mais sentindo fome, então pede o suco, mas como está agitado, ouve sua mãe falando seriamente que você precisa se acalmar para recebê-lo, então você para, mas ao receber o suco, joga o copo no chão. Nesta hora, sua mãe demonstra irritação, pega o copo, tira-o do cadeirão e recusa-se a  pegá-lo no colo. Então, você chora intensamente.

Creio que muitas famílias já passaram por este tipo de situação, suponho que algumas passam com bastante regularidade por elas. O que podemos fazer diante delas? Como evitar que cada situação de cuidado se transforme num embate enorme? Por que as crianças ficam tão contrariadas com situações tão previsíveis?

Felizmente não há uma resposta única para cada uma destas perguntas. O que devemos entender é que do ponto de vista das crianças, por mais rotineira que seja uma situação, ela irá atuar conforme suas percepções e desejos imediatos. Isto é, se está brincando, quer continuar a brincar; se os pais estão em casa, quer estar com eles; se a mãe chega, quer ficar com ela, receber sua atenção (mesmo que às avessas).

Ocorre uma dificuldade na comunicação e um desencontro de desejos. Pela lógica adulta, as situações funcionam com começo, meio e fim. Na cena 1 seria, brincar um pouco, trocar de roupa e sair de casa; na cena 2, brincar com o pai, despedir-se e dormir; na cena 3 saudar a chegada da mãe, terminar de comer e brincar.

Além disso, como estas cenas se repetem com frequência, ela se torna extremamente previsível para todos. Por isso, um bom jeito de minimizar a tensão decorrente delas  é mudar a maneira como se desenrolam. Às vezes, uma mudança no modo de interagir faz com que tudo se modifique. Por exemplo, você já convidou seu filho a te ajudar a colocar a sua roupa ou calçar o seu sapato? Depois de brincar e antes de levá-lo para dormir, já pediu para que ela guardasse sua bolsa/pasta de trabalho? Ao chegar no momento da refeição o tirou do cadeirão, deu-lhe uns beijinhos e em seguida provou da comida que ele estava comendo? Pois é, nenhuma destas propostas funcionam como fórmula mágica na resolução de conflitos e tensões, mas podem ajudar a diminuir o valor e o stress de muitas destas cenas.

Bom, por enquanto vou propor apenas esta pausa para pensar sobre cenas corriqueiras sob o ponto de vista das crianças, nos próximos posts irei abordar este tema sob outros pontos de vista.



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